dispersão

 Edvard Munch, The Death Bed, 1895
Tantos anos na profissão e eu ainda me apanhava de surpresa, emocionado com certos casos. Esse rapaz, por exemplo, vítima de um AVC. Novo ainda, em coma induzido já há sete dias, todo entubado… não sei o que havia nele que me despertava uma tristeza imensa. Talvez por aparentar mais ou menos a minha idade, ou por se parecer com alguém que eu conhecia, embora não me lembrasse quem.

Todos os dias o hospital recebia gente à beira da morte. Fazia parte da rotina. Médicos, enfermeiros e até mesmo as recepcionistas, acabavam se acostumando a gente ensanguentada, corpos dilacerados, pessoas beirando a tênue fronteira entre a vida e a morte, mas acho que particularmente nós, enfermeiros, éramos os que mais nos expunhamos, e consequentemente, os primeiros a sentir o que costumo chamar de “processo de desumanização”, que é uma incapacidade involuntária de sentir compaixão ou solariedade, e o paciente passa a ser não mais do que um mero produto do trabalho. Por favor, não me entandam mal! Ainda somos todos profissionais de saúde, comprometidos em salvar vidas… mas depois de um tempo deixamos de sentir, só isso.

Mas com este rapaz era diferente… por mais que me esforçasse não conseguia me lembrar da sua entrada, não me lembrava de fazer-lhe curativos ou de ministrar-lhe medicamentos… nada. Sentia apenas uma forte presença, uma força, ele agarrando-se a toda e cada esperança que lhe restava… mas não entendia o por que desse apego.

* * *

Já perdi a noção de quanto tempo estou sentado a seu lado, mas tenho a impressão de sempre ter estado aqui. Vejo pessoas chegando e saindo, muita gente, e todos me são familiares, de alguma maneira.

De repente senti seu corpo cair-se, deixar-se, naquela cama em que deitado já estava. Foi como uma renúncia, uma desistência, uma entrega... E foi neste exato momento que também senti todo seu cansaço, seu desânimo... toda aquela entrega, aquela desistência, aquela renúncia, tudo estava em mim! Só então fui capaz de entender todo aquele apego...

Levantei-me da cadeira e me afastei, devagar, do corpo inerte e rodeado de parentes e amigos. Se pudesse pedir algo antes de partir, seria a oportunidade de dizer alguma coisa, poucas palavras, para conforto de todos. Como não foi possível, espero que o discreto sorriso que deixei em meus lábios dê o recado.